• 02/05/2014
  • Kazuo
  • Underground

20 anos sem Ayrton Senna.

O Playback FC não cobre a competição automobilística de Formula 1. No entanto, o espaço esportivo deste site enaltece grandes ídolos do futebol e do UFC, sendo que todo grande ídolo do esporte não escapa à observação do Playback FC. Não há como passar em branco diante desta data de primeiro de maio de 2014, quando se completam 20 anos da morte do tricampeão brasileiro Ayrton Senna da Silva (1960 – 1994). Nós que fazemos o Playback FC, eramos crianças quando Senna era um dos principais pilotos da categoria.

Senna iniciou a carreira no começo dos anos 1980 pilotando para a equipe Tolerman. Há uma imagem forte na memória dos brasileiros em que Senna pilota uma Lotus negra com detalhes em dourado, carro com o qual ele obteve sua primeira vitória na competição em 1985, num Grande Prêmio de Estoril (Portugal). Em 1988 Ayrton foi contratado pela escuderia britânica McLaren, onde Ron Denis formava um time poderoso com o brasileiro e o tetracampeão francês Alain Prost. Não pretendemos desrespeitar aqui pilotos profissionais como Rubens Barichello nem Felipe Massa. Porém a geração deste que vos escreve se acostumou a assistir um piloto impulsivo e competitivo. Havia um respeito entre Senna e Prost, mas ambos competiam entre si, simplesmente para provar quem era o melhor, dentro de uma mesma equipe.

Senna pilotando a Lotus em 1986. (Foto: divulgação)

Aliás, Senna competiu com o também tricampeão brasileiro Nelson Piquet ou com o inglês Nigel Mansell, o único que poderia ameaçar a conquista do tricampeonato de Senna em 1991. Em 1994, em termos futebolisticos o Brasil caminhava para 24 anos sem conquistas de Mundiais. O último título havia sido aquele de 1970, no México ainda com Pelé. O Brasil abdicou do futebol e tinha seu esporte favorito nas manhãs de domingo, as competições de Formula 1. Senna ascendia enquanto ídolo internacional do esporte num período em que o Brasil, em âmbito político, acabava de sair da ditadura e tentava se inserir num processo democrático. A campanha pelas eleições diretas, acontecera na primeira metade dos anos 80.

Discreto e por vezes pensando antes de falar, Senna se pronunciava muitas vezes na primeira pessoa do plural, quando se referia a si e a torcida no Brasil. Mostrava-se enquanto parte do povo e os êxtases coletivos maiores, foram vistos nas corridas em Interlagos (São Paulo/SP) em 1991 e 1993, quando Senna obteve suas únicas duas vitórias em solo nacional. Sua desmedida se via nas pistas, onde irritava o então presidente da FIA Jean Marie Balestre, reivindicando maiores condições de segurança. Balestre se irritava porque Senna era muito veloz. O racional Alain Prost, rival que Senna sempre respeitou, foi rotulado pejorativamente pelos torcedores brasileiros como “medroso”.

Ou quando a desmesura se revelava simplesmente mostrando que Senna não sabia perder, como no desfêcho da temporada de 1989, no Japão. Senna se chocou com Prost, no decorrer do grande prêmio e pediu para os fiscais de prova empurrarem seu carro de volta a pista. Senna chegou em primeiro mas foi desclassificado, Prost acabou com o título mundial na ocasião. Senna era a desmedida mas também era a perfeição, sobretudo quando corria sob chuva torrencial. Senna era o yin e era o yang, o alfa e o omega, o início e o fim.

O mês de maio de 1994.

Após três títulos pela McLaren (1988/1990/1991), Senna viu a Williams configurar o melhor carro e obter dois títulos em 1992 e 1993. Em 1994, a equipe também britânica o contratou, tentando adaptar o carro para as novas normas que excluíam componentes eletrônicos, que haviam sido usados nos últimos dois anos. Os carros se tornaram instáveis. O ápice dos problemas foram vistos na terceira corrida em Ímola (Itália). Senna não conseguiu completar as duas primeiras corridas da temporada e havia uma grande tensão. Nos treinos classificatórios, o então jovem Rubens Barichello acaba gravemente ferido. Pouco depois, o piloto austríaco Roland Ratzemberger acaba por falecer no treino da véspera.

Ayrton Senna (1960 – 1994). (Foto: divulgação)

No domingo, dia 01/05/1994, após uma nova batida entre carros durante a largada, a corrida é interrompida com a entrada do Safe Car, que conduz os participantes até um novo reinício com os carros em andamento. Senna era o primeiro quando na sexta volta, com a corrida novamente em curso, sua Williams perde o controle a cerca de 300 km/h e colide fatalmente com o muro da curva Tamburello. Os brasileiros tiveram um domingo que não aconteceu.

Havia uma atmosfera incomum naquele mês de maio de 1994. Nos dias que se seguiram, o corpo de Senna chegou a São Paulo/SP, sua cidade natal. Uma multidão entristecida foi as ruas e o caixão de Senna foi velado publicamente. Pessoas que nunca o conheceram pessoalmente choravam, mostravam-se indignadas e completamente transtornadas. A personalidade de Senna não condizia com a de um rockstar arrogante, mas o efeito, a histeria que ele causava sobre o público era similar ao de um.

Todos os que viveram a época tem sentimentos ambíguos quando se recordam. Não sabem se ficam felizes por recordar do tricampeão, ou se ficam tristes por terem experimentado algo tão doloroso. Aqueles que viveram aquele período carregam uma cicatriz, a qual jamais sumirá. Nos meses que se seguiram a tristeza só diminuia quando Romário colocava uma bandeira do Brasil nas costas, após as partidas da Seleção Brasileira, no Mundial dos EUA. E só houve esperança novamente quando o italiano Roberto Baggio chutou o último penalti das cobranças alternadas da partida final, para os céus…

Comentários